Marcello Antony, aos 60 anos, relembra sua trajetória na TV Globo, emissora onde trabalhou de 1996 a 2014, sendo “Amor à Vida” sua última novela. Após 11 anos, o ator reside em Lisboa com a família, atuando como corretor de imóveis de luxo e aproveitando o reconhecimento de seu trabalho na televisão.
Em entrevista, Antony compartilhou detalhes sobre sua vida em Portugal, a reação ao saber que dois de seus cinco filhos trabalham como entregadores de comida e os desentendimentos com João Emanuel Carneiro e Ricardo Waddington.
O ator destaca a abrangência das novelas brasileiras: “Rússia, todos os países latinos, os angolanos, caboverdianos, moçambiquenhos, os de língua portuguesa… Lembro que na pandemia estava de máscara, boné e óculos. Um angolano passou por mim: ‘olha lá o Marcelo’. Nem a minha mulher estava me reconhecendo (risos). Isso é por causa do poder da novela. A novela brasileira tem penetração absurda”.
Antony também comentou sobre a crise enfrentada pelas novelas: “É um conjunto de fatores. Foram fundamentais para essa diluição a entrada do streaming e da rede social. Hoje é difícil explicar para uma geração bem nova o que é ‘a seguir cenas dos próximos capítulos’. Por que só amanhã posso saber o que vai acontecer? Hoje se assiste a tudo quando quer. Junto a isso, o afastamento em massa de todos os profissionais, não só atores, mas diretores e técnicos, o que baixou a qualidade”.
Sobre a polarização no Brasil, o ator opina: “Na polarização, se puxa para um lado, metade do Brasil já não assiste. Se for para o outro lado, a outra metade do Brasil não assiste. Antigamente, por exemplo, Rei do Gado trouxe a questão do MST. Ia para a sociedade como uma discussão. Hoje, não. Se você puxa o MST, não tem discussão. Tem só bandeira. Uma metade vai querer, outra metade não. Ou é ou não é”.
Antony explicou sua mudança para Portugal: “Saí pelo clichê básico: por segurança. Não me sentia seguro e à vontade de criar meus filhos nesse tipo de sociedade. De ser assaltado, de tomar tapa na cara de policial”.
A decisão de se mudar foi familiar: “Meu agente me ligou e falou: ‘Marcelo, tem uma emissora portuguesa te convidando para uma telenovela’. Aí olhei para minha mulher: ‘vamos?’. Em dois meses cheguei com 16 malas em Portugal, e estou até hoje. Já vim na intenção de ficar. Antes reuni meus filhos: ‘vocês topam?’. Eles podiam falar: ‘não’. Não ia ficar à vontade de ficar 10 meses longe da família. Eu sou muito família. Todos quiseram vir. Todo mundo se adaptou, eles perceberam a segurança. Foi nítido no primeiro mês a coisa de poder andar com o celular na rua de noite”.
Sobre a carreira de corretor de imóveis de luxo, Antony relata: “Um amigo que me apresentou a um CEO de uma agência americana, a The Agency, que é do Maurício Mansky, da Califórnia; onde fizeram o Buying Beverly Hills na Netflix, sobre o dia a dia dos corretores de alto luxo. The Agency expandiu para o mundo, tem em mais de 30 países. E o CEO da The Agency Portugal fez o convite de trabalhar para eles. Achei interessante”.
O ator descreve o mercado imobiliário português como “agressivo”, com milionários de diversas partes do mundo investindo no país.
Antony também comentou sobre os filhos trabalhando como entregadores de comida: “Não foi uma imposição minha, de jeito nenhum. Lucas e Louis, meus enteados, filhos da Carol, me comunicaram. Do nada, Lucas: ‘estou fazendo faxina na casa de americanos’. E Louis: ‘estou passeando com os cachorros dos ingleses’. Eles começaram a ganhar 60 euros aqui, 80 euros ali… Começaram a gostar de ter dinheiro. Os dois se mudaram para a Holanda, estão trabalhando de Uber Eats, de bicicleta. Portugal não é país para fazer dinheiro. Na Holanda, o salário mínimo é 2 mil e blau. Eles fazem muito dinheiro. Eles nunca fariam isso no Brasil. Francisco, meu ouro filho, é auxiliar de cozinha numa rede de comida natureba, a Honest Greens. Já está quase virando chefe do staff”.
Questionado sobre um possível retorno à Globo, Antony responde: “Acho difícil, porque as coisas mudaram. Bom, primeiro, dependo de convite, né? Não é uma coisa que falo: ‘pô, dá para eu trabalhar?’. Não, as pessoas me conhecem. É óbvio que o custo de me trazer daqui para lá inviabiliza as coisas. Hoje eu não faria. Só se fosse muito desafiador. Sou movido pelo desafio. Se for desafiador, a gente até abdica de algumas coisas. Virou uma chave”.
O ator também mencionou um desentendimento com João Emanuel Carneiro e Ricardo Waddington: “Teve uma época que eu estava… Não é de saco cheio, mas… Cansado de fofoca, não queria ficar no centro das atenções. E o Ricardo Waddington me chamou pra fazer o Doda em A Favorita, do João Emanuel Carneiro, que Murilo Benício fez de cabelo louro. Só que ao mesmo tempo soube que iam fazer um remake de Ciranda de Pedra, novela das seis. Seriamos eu, Daniel Dantas e Ana Paula Arósio. Recebi os dois convites. Fui numa reunião com o Mário Lúcio Vaz e pedi para fazer a novela das seis. E ele: ‘Marcelo, estou há não sei quantos anos na Globo. Você é o primeiro que me pede para fazer novela das seis e não das oito’. Aí ele liberou. Só que nisso criei inimizades. João Emanuel e Ricardo Waddington a partir daquele momento me vetaram de tudo. Os egos lá dentro enterraram qualquer possibilidade de convites futuros com eles. Mas faz parte do jogo. Trabalhar com TV é administrar egos. Fiquei mais tranquilo ali na periferia, não estava no centro das confusões”.
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