O complexo Henry Borden, formado por duas usinas hidrelétricas em Cubatão (SP), foi essencial para o desenvolvimento industrial do Estado de São Paulo. Inaugurado em 1926, o complexo possui capacidade máxima de 889 megawatts/hora, suficiente para abastecer mais de 4 milhões de residências. Atualmente, a capacidade máxima das usinas não é utilizada todos os dias, pois o complexo Henry Borden serve como backup do Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia. Apesar de ter sido considerado um marco da engenharia hidrelétrica no início do século passado, o modelo construtivo foi superado por soluções de menor impacto ao meio ambiente.
Com estruturas que transpõem a serra paulista do planalto ao litoral, o complexo Henry Borden se funde à paisagem da cadeia de montanhas da Serra do Mar. Com quase 100 anos de história, já foi alvo de bombardeio durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e ajudou a alavancar o desenvolvimento industrial do Estado de São Paulo. Hoje, mantém sua importância estratégica interligada ao sistema nacional de energia.
A Henry Borden pertence à Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), que foi privatizada pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas no ano passado, em leilão realizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). A unidade foi adquirida por R$ 1,04 bilhão para o Fundo Phoenix de Investimentos em Participações Multiestratégia.
O complexo tem capacidade máxima de 889 megawatts/hora, quantidade de energia capaz de abastecer uma cidade com 2 milhões de imóveis, considerando indústrias e comércios. “Desprezando a indústria e perdas durante a transmissão, a energia é suficiente para abastecer 4,2 milhões de residências”, explicou Emerson Laube, coordenador de operações da usina.
Desde 1992, para se adequar à legislação estadual ambiental que só permite o bombeamento das águas do Rio Pinheiros para o Reservatório Billings em situações emergenciais, a Henry Borden teve sua operação regulada. Mesmo assim, estrategicamente, o complexo ainda serve como reserva ao sistema.
No início da operação, as usinas abasteciam toda a Baixada Santista e a região sudeste de São Paulo. Atualmente, a capacidade máxima das usinas não é utilizada diariamente. O complexo Henry Borden serve como backup do Sistema Interligado Nacional (SIN), que funciona como um “anel”, onde todos os geradores conectam suas usinas e, quando necessário, as transmissoras retiram energia. “As nossas unidades ficam rodando e conectadas no sistema, mas não estão gerando energia. Numa necessidade do sistema, por exemplo, se teve um problema em Itaipu ou em Angra, automaticamente o SIN liga para a sala de controle e solicita energia”, explicou Laube.
O complexo é acionado pelo sistema interligado de forma sazonal, pois as usinas só conseguem gerar o que o SIN está consumindo. “Quando o consumidor aumenta o consumo dele, o SIN despacha a gente. Então, entramos no horário de pico. Tem época que é praticamente todo dia, no final da tarde, que a gente sobe para carga máxima e início da noite a gente diminui”, disse o coordenador.
O complexo Henry Borden é composto por 14 grupos de unidades geradoras de energia: 8 na usina externa, capaz de gerar até 469 megawatts/hora, e 6 na subterrânea, com capacidade de geração de 420 megawatts/hora. Juntas, geram 889 MW. Parte da usina externa do complexo chama atenção de quem passa pelas rodovias de acesso ao litoral sul paulista, por conta dos oito longos tubos cravados na Serra do Mar, que transportam a água do reservatório Billings para alimentar as unidades geradoras da usina. A parte subterrânea da usina foi construída numa caverna com 120 metros de comprimento, 21 de largura e 39 de altura.
Na época da construção das usinas, a solução inédita foi reverter o fluxo dos rios da capital – que seguem rumo ao interior – e assim gerar energia lançando água em direção à descida do litoral. O projeto foi considerado inovador. A partir do fim da década de 1980, no entanto, foi acirrada a disputa entre os movimentos ambientalistas e o setor industrial, beneficiado pela energia. As restrições ambientais ao sistema de reversão culminaram em uma legislação que proíbe o bombeamento de águas de rios poluídos para o reservatório Billings.
A queda d’água, entre a altura do reservatório e o ponto onde está a casa de força, tem 720 metros de altura, o que rende outro título à Henry Borden: o de uma das 10 maiores usinas do mundo com esse tipo de queda. Um bonde funicular foi construído para realizar o transporte dos trabalhadores responsáveis pela construção das adutoras na Serra em Cubatão, e o equipamento é utilizado ainda hoje por equipes que realizam a manutenção nas tubulações.
Muitas pessoas sabem que o complexo Henry Borden foi essencial para a industrialização do Polo de Cubatão, mas o impacto ao Estado de São Paulo é menos conhecido. “Quando foram inauguradas e, aos poucos, tendo a capacidade implantada, praticamente dobrou a geração de energia do estado de São Paulo”, afirmou Laube. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o complexo Henry Borden foi bombardeado, com hidroaviões lançando bombas na região de Cubatão, atingindo a sala de controle da usina.
De acordo com o engenheiro civil e pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes, José Manoel Ferreira Gonçalves, o complexo Henry Borden pode ser considerado um “marco da engenharia brasileira”, mas a construção não seria possível atualmente, por causa dos impactos ambientais. “É uma concepção de obra pública típica do século passado. A preocupação central era gerar energia a qualquer custo, com pouca atenção aos impactos ambientais e sociais”, disse Gonçalves.
Apesar disso, o engenheiro não nega a importância histórica das hidrelétricas de Cubatão e reconhece a estratégia usada para localização do complexo Henry Borden. Para ele, um projeto de recuperação ambiental na Serra do Mar seria uma boa alternativa para mitigar os impactos causados na construção das usinas. Uma vila residencial privativa fica próxima às usinas e é voltada para os trabalhadores do complexo Henry Borden, que conta com uma escola que inicialmente atendia somente filhos de funcionários, mas hoje em dia é aberta ao público geral. Aproximadamente 30 famílias moram na vila e a usina possui trabalhadores durante 24 horas. Os funcionários trabalham por turnos de seis pessoas.
